Quais são suas bandas e cantores favoritos? Será que sua lista dos dez mais é como a minha, e estão representados no máximo três ou quatro países? Dois ou três idiomas? Agora que me dei conta disso, me propus um desafio: buscar mais diversidade nas músicas que escuto.

A música é uma das principais expressões culturais de um povo. Nela podem estar representadas o idioma nativo, um estilo local, instrumentos únicos. Podem ser canções sobre um cotidiano com o qual é fácil identificar-se, ou podem ser canções de protesto sobre uma realidade totalmente diferente da nossa. Podem ser tradições milenárias ou o último hit do verão.

Não sou uma grande conhecedora do mundo musical, não toco nenhum instrumento e sou desafinada até para falar, hahaha. Por outro lado, adoro passar horas no Spotify, indo de uma banda a outra e a outra, depois já nem sei como fui chegar no Sidney Magal. Por isso me diverti pesquisando músicas do mundo inteiro para montar uma playlist bem globalizada. Comecei com cinco músicas do Brasil, pra divulgar nosso ziriguidum. Depois segui com músicas de todos os continentes. Minha única regra é que cada música tem que estar no idioma oficial do país de origem.

Vou compartilhar essa playlist no Spotify, então espero que vocês comentem o que acharam e sugiram novas músicas. De tempos em tempos, atualizarei nosso Super Mix Top Hits do Mundo a partir das dicas de vocês.

Aí vai a versão 1.0 da nossa lista:

Os Mutantes – Panis et Circensis.

Os Mutantes são tipo os Beatles brasileiros, só que melhores. Brincadeira, mas a verdade é que além de estarem entre os primeiros a levar o rock para o Brasil, tiveram a genialidade de misturá-lo com a Tropicália e outras referências da nossa cultura. E tudo isso com uma mulher em papel de destaque, a grande Rita Lee.

Caetano Veloso – Vaca Profana.

Caetano é um dos artistas brasileiros mais conhecidos mundo afora, felizmente. Vaca Profana foi composta para Gal Costa e é mais conhecida na sua voz. É um dos maiores exemplos da poesia-canção de Caetano, com seus versos enigmáticos que misturam o paradoxo de uma mulher sagrada e uma vaca profana com referências à cultura brasileira, espanhola e mundial.

Céu – Varanda Suspensa.

A música é leve e alegre, o clipe é lindo, gravado em Super 8 e retocado e pintado à mão, com uma Céu bem paulista fazendo uma dancinha delícia zero sensualidade. Céu poderia ser considerada uma ilustre representante da MPB atual, mas essa moça esperta sabe que esse é um conceito limitado para tantos ritmos e influências que a música brasileira abarca atualmente.

Tássia Reis – Semana vem.

Confesso que não escuto muito rap, mas com sua voz doce e a combinação com outros gêneros como R&B ou o reggae, Tássia Reis me fez dar mais atenção ao estilo. Não disse que a música pode representar um momento do país? Essa paulistana emprega suas rimas para dar voz a pautas atuais não só no Brasil mas em grande parte do ocidente: o empoderamento da mulher negra e pobre, desigualdade, machismo, relacionamentos abusivos.

Baiana System – Barra Avenida Pt. 2.

Você pode gostar ou não, mas uma coisa é certa: não existe nada como Baiana System. Essa frase é de BNegron e vem do release do álbum Duas Cidades. Eu me aproveito dela pois como não-entendedora de música que sou, é difícil explicar Baiana System. O que eu posso dizer é que adoro a capacidade do grupo (Coletivo? Sistema?) em unir instrumentos como a guitarra baiana, rabeca, machete, metais, e percussão e ritmos como o ijexá, sambareggae, dub, kuduro e eletrônica para criar seu som, inclassificável e global.

Argentina. Sumo – La rubia tarada.

Começamos nossa viagem musical pelos vizinhos argentinos. Descobri que o rock é coisa séria na Argentina. Teve uma grande expressão a partir dos anos 60 e uma enorme popularidade nos anos 80. É nesse contexto que surgiu a mítica banda Soda Stereo. Já Sumo foi a banda fundada pelo ítalo-escocês Luca Prodan, que chegou ao país para escapar do vício em heroína. Em La Rubia Tarada, exalta como verdadeira Argentina aquela formada por gente desperta, em contraponto a uma parcela supérflua e materialista da sociedade.

Uruguai. Jorge Drexler – Guitarra y vos.

Se eu pudesse conhecer algum dos artistas desta lista, provavelmente seria Jorge Drexler. Médico e músico, Drexler não faz nada por acaso. Suas melodias e letras são fruto do estudo e da reflexão. É autodidata, mas também aprendeu de mestres como o espanhol Joaquim Sabina e de cantores folclóricos dos diversos países por onde passou em turnê. Tenho a teoria de que qualquer um que escute um álbum de Jorge Drexler com coração e mente abertos, será uma pessoa melhor 40 minutos depois.

 

México. Natalia Lafourcade – Tus ojitos.

Natalia é uma verdadeira apaixonada por sua terra. Em seus três últimos registros traz homenagens aos compositores que lhe influenciaram: cantores de Veracruz, do México e de toda a América Latina. Em Musas, álbum em dois volumes (o último lançado em fevereiro de 2018), trabalha em conjunto com Los Macorinos, violonistas da velha guarda mexicana.

Portugal. Salvador Sobral – Amar pelos dois.

Cruzando o Atlântico, desembarcamos na Terrinha. foi só ao vir morar na Espanha que descobri o Festival Eurovisão da Canção, que já existe desde 1956. Em 2017, a canção Amar pelos Dois, triste e nostálgica como um fado, foi não só a primeira portuguesa a vencer o concurso como também a música a obter mais pontos na história do festival. Certamente o público foi conquistado pela voz melódica e pela interpretação emocionada do tímido Salvador Sobral, que tinha a torcida de J. K. Rowling e Caetano Veloso.

Espanha. Els Amics de les Arts – El seu Gran Hit.

Uma banda do meu querido lar, Barcelona. Já me disseram que eles não são mais os mesmos do início e aqueles comentários que sempre se faz quando uma banda começa a crescer. Mas como só os conheci agora, não sofro desse saudosismo. Adorei o último álbum, Un Estrany Poder, cheio de músicas super dançantes, ao contrário dos registros anteriores. O que sigue igual são suas letras criativas, que tratam de um cotidiano de jovens inteligentes, com um humor engenhoso e um pouco pessimista.

Sérvia. Boban i Marko Markovich Orkesta – Khelipe E Cheasa.

A música folclórica dos Balcãs é muito característica e se chama truba, que significa “trompete”. Gulag Orkestar, o álbum de estreia de Zach Condon (conhecido como Beirut), foi inspirado na sonoridade balcânica. Mas não basta ser inspirado para entrar na nossa lista! Por isso a recomendação aqui é a Boban i Marko Markovic Orkestar, um dos mais conhecidos grupos desse estilo. Ganharam ainda mais popularidade depois de ser trilha sonora dos filmes de Emir Kusturica, dono de Palmas de Ouro, Ursos e Leões de Prata.

África do Sul. Miriam Makeba – The Click Song.

Quando escuto as músicas de Miriam Makeba, meu humor melhora instantaneamente, já que dá pra perceber o enorme sorriso da cantora através de suas canções. Makeba se tornou a voz sul-africana durante os anos de apartheid, e apesar de viver trinta anos no exílio, nunca deixou de defender e divulgar a África do Sul como seu verdadeiro lar. Fiel às suas raízes, popularizou canções da cultura xhosa como Pata Pata. Era uma mulher extremamente culta e seu repertório tem interpretações que vão desde o português até o ídiche.

Nigéria. Fela Kuti – Zombie.

Fela Kuti é um dos poucos a quem se pode atribuir a criação de um estilo musical, o afrobeat. Esse ritmo é caracterizado por uma mescla de música ioruba com jazz e funk, pela improvisação, por shows longuíssimos, bandas com até 80 músicos e, fundamentalmente, pela temática política. Kuti era nigeriano e foi a principal voz anticolonialismo, sendo perseguido em seu país devido à sua ideologia. Influenciou diversos cantores pelo mundo afora e seu legado continua evoluindo e se desdobrando em novos ritmos.

Gana. Worlasi – One Life.

Das músicas que só descobri quando escrevia esse post, One Life foi minha preferida. Costuma ser difícil identificar-se com músicas cantadas em um idioma que não entendemos, porém a voz e o ritmo de Worlasi captaram minha atenção de imediato. Você também ficou com vontade de cantar junto, mas precisa melhorar um pouco a fluência no éwé? Através do clipe com legenda podemos nos conectar um pouco mais com a música, conhecer a linda Sena Dagadu que participa cantando em inglês e também ver algumas cenas de Gana.

Paquistão. Nusrat Fateh Ali Khan – Mere Hashke Qamar.

Nusrat era um mestre paquistanês de qawwali, um estilo de música sufi, corrente mística do islã. Cantar qawwali costuma ser um negócio de família, e a de Ali Khan tem uma tradição de mais de 600 anos. Segundo Jeff Buckley, que se proclamava o maior fã de Nusrat e tem até covers em urdu, a música qawwali busca a conexão com Alá. Primeiro, através da beleza e significado das letras e em seguida pela repetição, fazendo com que as pessoas possam atingir um estado semelhante ao nirvana. Por isso, as performances do cantor paquistanês tinham também o efeito de uma experiência de libertação espiritual para alguns. Entre outros fãs ocidentais de Nusrat Fateh Ali Khan estão Peter Gabriel e Eddie Vedder.

Austrália. Geoffrey Gurrumul Yunupingu – Bayini.

Gurrumul foi o artista aborígene mais conhecido de todos os tempos. Cantava em sua língua natal, o yolngu, e em inglês. Era cego de nascimento, o que não o impediu de ser um multi-instrumentista. Bayini é uma de suas canções mais populares e fala sobre seres mitológicos de sua cultura. Seu primeiro álbum só foi lançado em 2008 e foi um grande sucesso de crítica. Sua voz conquistou Elton John, Björk e Sting e foi descrita como de uma beleza transcendental.

Nueva Caledônia. Ok! Ryos – Co era so.

Foi bem difícil encontrar informação sobre este grupo, que tem a modesta cifra de 340 ouvintes mensais no Spotify. Essa canção tranquila e harmoniosa, que facilmente nos transporta para uma praia do Pacífico, faz parte do movimento kaneka, criado para promover a união cultural entre as mais de 300 tribos que habitam a Nova Caledônia. O objetivo é fortalecer um movimento independentista, já que a ilha é território francês. Entre os obstáculos enfrentados por Ok! Ryos e outros artistas melanésios estão o isolamento geográfico e a falta de acesso à internet pela população. Assim fica muito mais difícil que sejam divulgados nas redes sociais e se tornem conhecidos (quem sabe a gente não ajuda um pouquinho?).

Coreia. Twice – Candy Pop.

No outro extremo da popularidade, está a febre mundial do K-pop. Esse é um dos principais elementos da “onda coreana”, a propagação da cultura do país por todos os continentes. O vídeo da música Likey, do grupo Twice, por exemplo, tem 180 milhões de visualizações no Youtube. Um vídeo de Taylor Swift lançado quatro dias antes tem 173 milhões. Algumas bandas fazem também versões em japonês e quase sempre há um refrão pegajoso em inglês. A disciplina oriental nunca falha: os grupos de K-pop são compostos por trainees, adolescentes recrutados por grandes gravadoras ou através de reality shows. Eles são treinados até estarem preparados para sua estreia como artistas. Porém nada disso é visível em seus clipes com garot@s super-hiper-mega-felizes, coreografias, cores brilhantes e chuvas de purpurina.

E aí, gostaram? É uma playlist bem eclética, por isso queria saber quais músicas vocês gostaram e quais não. Prometo apagar as mais impopulares. Não esqueçam de deixar novas recomendações, prometo atualizarla em breve a partir dos conselhos de vocês!